Análise de "Mónica e o Desejo"

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[Introdução]

Segue uma análise feita novamente para a cadeira de Análise de Filmes em 2010. Desta vez, o filme escolhido foi Sommaren Med Monika ou em português Mónica e o Desejo do realizador sueco, Ingmar Bergman. O trabalho contém screenshoots retirados do filme para análise dos mesmos.

[Sinopse *Spoiler*]

Sommaren Med Monika, história baseada no livro de Per Anders Fogelström, começa com Harry, um jovem de 19 anos que trabalha numa fábrica de vidros chamada Forsberg. Harry vai até um café onde uma jovem (que nos é apresentada momentos antes) lhe pede fósforos para acender o cigarro. Monika, uma rapariga rebelde de 17 anos que trabalha numa loja de vegetais e aparentemente já conhecia Harry de vista, inicia depois uma conversa com Harry. Começa por dizer que a Primavera chegou, o que faz com que esteja um bom dia para trabalhar e refere também como seria bom ir embora numa viagem pelo mundo. Harry fica animado com a conversa e os dois parecem entender-se muito bem chegando ao ponto de Monika perguntar a Harry se já viu Song of Love (em português Música de Amor), um romance que a jovem gostaria muito de ver, levando Harry a convidá-la para o irem ver juntos. O encontro corre bem e os dois acabam num pequeno parque onde se beijam e confessam estarem apaixonados um pelo outro.

Algum tempo depois, os dois encontram-se e Harry convida Monika para jantar em casa dele já que o pai estaria num jantar do Clube Náutico. Ela aceita e confessa a Harry que ele não é como os outros homens, ele é como os homens nos filmes românticos. É durante este jantar que Monika é apresentada ao pai de Harry, quando este chega mais cedo devido a problemas de saúde.

Quando um dia o pai de Monika chega a casa bêbado e lhe bate, ela sai de casa e pede abrigo ao namorado que a consegue levar para o barco do pai, onde passam a noite juntos. No dia seguinte, Harry é despedido e juntamente com Monika parte no barco para uma pequena ilha onde decidem passar o Verão. O casal faz planos para o futuro: poderiam fugir dos seus problemas e das suas vidas; ter uma boa casa; Harry estudaria para se tornar num Engenheiro; Monika ficaria em casa a tomar conta dos filhos; poderiam comprar roupa cara; ter uma família feliz como nunca antes tiveram.

Depois de passarem algum tempo juntos Monika dá a Harry a notícia de que está grávida. Harry quer voltar para casa onde Monika terá comida decente e boas condições mas esta recusa-se a ir. Após uma pequena discussão eles acabam por continuar a sua aventura, mais felizes do que nunca.

No entanto, o futuro de sonho que os jovens pensavam que iriam ter, transforma-se num pesadelo real. A comida começa a escassear, Monika começa a discutir violentamente com Harry e o casal acaba por ter de invadir uma propriedade para conseguir algum alimento. Ambos conseguem fugir no último minuto mas para Monika ter Harry ao seu lado já não é suficiente. Acordando para a cruel realidade voltam para a cidade. Harry pede ajuda à tia que arranja forma de eles se casarem e terem a sua própria casa.

O rapaz arranja trabalho numa firma e começa a estudar em casa. Tempos depois June nasce e desde cedo é abandonada pela mãe. Monika ignora o seu choro e quando Harry lhe pede ajuda ela ignora-o por completo. Ela chega mesmo a afirmar que enlouqueceria se tivesse de tomar conta da filha durante dia e noite. Para além disto, Monika apercebe-se de que a vida de luxo que tanto deseja está muito longe. Eles não têm quase dinheiro nenhum e o que têm serve para as despesas e mais nada, inclusive Monika queixa-se que para além de já não poderem ver filmes ela não pode sair à rua porque não tem roupa decente.

A firma onde Harry trabalha oferece-lhe um trabalho temporário fora da cidade o que o leva a estar fora algum tempo. June fica ao cuidado da tia e Monika fica em casa sozinha. Assim que a tia e o marido saem de casa, Monika vai encontrar-se com um homem. A situação piora aquando do regresso de Harry. Assim que entra em casa deparasse com Monika e outro homem. Estes não o vêem e Harry sai do apartamento mas quando o amante da mulher sai também do apartamento ele depara-se com Harry e tenta disfarçar.

O casal discute violentamente e acaba por se separar. Não sabemos o que acontece a Monika. Harry, que acaba por vender o pouco que tem, juntamente com a filha, abandonada pela mãe, vão viver com o pai de Harry.

O filme acaba com Harry, na rua onde tudo começara, a olhar para o seu reflexo (no mesmo espelho da porta onde Monika se compora no início do filme quando nos é apresentada) e o da filha. Inicialmente com um ar feliz ao ver o reflexo da filha, depressa fica com uma expressão mais triste ao confrontar-se com o seu próprio reflexo e com aquilo que ele representa: a sua realidade e o fim de um sonho de onde apenas sobraram June e as memórias de um Verão passado com Monika.
    
[Divisão do filme]

Eu decidi dividir o filme pelos momentos importantes também coincidentes com os locais de filmagens, resultando num total de 3 partes.

A primeira parte, na cidade, serve para introduzir a história. Apresenta-nos as personagens principais (Harry e Monika) dando informações sobre as mesmas como quais e como são as suas relações sociais, o ambiente de trabalho e a família. Finalmente mostra-nos como o casal se conhece e o como começa o romance. Este primeiro capítulo vai desde o início do filme até ao momento em que o pai de Monika lhe bate e esta sai de casa e foge para Harry.

A segunda parte, que se passa essencialmente fora da cidade, começa quando Harry leva Monika para o barco do pai e acaba quando Monika está grávida. Esta parte corresponde ao desenvolvimento do filme. Depois de Harry ir para o barco com a namorada é despedido e os dois partem numa viagem. É aqui o centro do filme. Quando o jovem casal vive as suas aventuras num mundo livre, sem problemas, sem trabalho, sem a família. Apenas os dois. O amor e os planos para o futuro desenvolvem-se totalmente. No entanto, chegamos a uma parte fulcral da história quando Monika anuncia a sua gravidez.

A terceira parte, quando se retorna à cidade, é então a parte final que se estende desde a segunda parte até ao final do filme. Embora aparentemente um filho fosse aquilo que mais poderia juntar o casal, é a partir deste momento que a felicidade do casal começa a acabar e a história toma um outro rumo. A vida que antes parecia ser perfeita começa a desabar conforme a comida e o conforto começam a desaparecer. Monika sente que lhe falta muita coisa e Harry já não é suficiente para ocupar esse vazio. Depois de terem de roubar uma quinta para arranjar alimento o casal volta para a cidade e rapidamente o amor que antes parecia infinito acaba quando Monika (que ignora por completo a filha June, não demonstrando o mínimo de afecto por ela) trai Harry com outro homem. Harry divorcia-se de Monika e esta desaparece abandonando Harry e June.

[Ponto de Vista do Filme...]

Irei agora analisar os pontos de vista, começando pelo sentido visual. O filme Sommaren Med Monika foi filmado usando planos objectivos, possibilitando ao espectador ver as reacções de todas as personagens (algo que não aconteceria se o filme tivesse sido filmado partindo de uma visão subjectiva).

Vê-se ainda que a câmara quase que pretende ser uma outra pessoa, simulando um pouco a sensação do espectador estar a ver a acção a decorrer à sua frente na realidade. Isto verifica-se pois a câmara raramente está fixa, fixando essencialmente em partes mais dramáticas e decisivas, estando sempre a acompanhar os protagonistas nem que seja com um pequeno desvio para a direita, como se se trata-se de um olhar humano a observá-los.

No entanto, existem algumas situações em que foram usadas soluções interessantes para as cenas que foram filmadas. A primeira aparece logo nos primeiros minutos do filme quando Monika se compõe à frente de um espelho de uma porta e seguidamente esse mesmo espelho é usado para nos mostrar o que se passa do outro lado da rua, enquanto Monika entra para o trabalho.

A segunda acontece quando o casal está sentado num banco depois do primeiro encontro (a ida ao cinema). Durante todo esse tempo vemos apenas Monika de frente, nunca vendo o rosto de Harry durante esse plano. Isto dá a Monika uma importância extrema e não dá a conhecer ao espectador as reacções faciais de Harry durante a conversa.

No minuto 76, que vemos no fotograma 1, Bergman filma a cena de forma a dar mais intensidade à cena. No caso presente, Monika está a reclamar da vida que tem, do facto de não ter dinheiro, de não ter o luxo que desejava. Enquanto isso, Harry tenta manter-se calmo, embora visivelmente aborrecido com a mulher, e tenta mostrar o lado bom da situação. Os sentimentos das personagens são reforçados com a solução utilizada por Bergman, colocando Monika mais afastada de Harry tornando-a mais pequena que ele, inferior a ele, enquanto Harry aparece enchendo a tela. 


Passando para o sentido narrativo, Mónica e o Desejo é contado na terceira pessoa. A história de Harry e Monika é-nos contada por alguém que se encontra fora da história o que nos permite apoiar ou criticar uma personagem sabendo que a nossa opinião não está a ser manipulada por nenhum ponto de vista que não o nosso. Sabemos tudo o que se passa na história, nada nos é escondido. Não sabemos nada que a personagem não saiba e a personagem também não tem conhecimento que nós não possuímos. Ambos (personagens e espectadores) estamos a viver as acções naquele momento com as mesmas informações.

A nível Ideológico o filme retrata vários temas. O primeiro de todos é o conflito entre gerações, visível na forma como Harry é tratado na fábrica onde trabalha. Por ser o empregado mais novo é frequentemente chamado a atenção e ainda tem de sofrer com a violência física e psicológica exercida pelos empregados mais velhos.

Com o decorrer do filme encontramos o Dualismo de Ideais. Enquanto Harry procura uma família feliz, Monika apenas quer conforto e luxo. Mesmo no final do filme quando a situação de vida do casal está de rastos, Monika odeia a sua realidade e apenas consegue ver o lado negativo da situação, aliás para ela aquilo é um Inferno sem um único motivo para a felicidade. Enquanto isso Harry, mesmo numa má situação, tem como mais importante a sua mulher e filha, trabalhando o mais que consegue para lhes proporcionar uma boa vida. Embora Monika não pare de reclamar, Harry perdoa-lhe. Quando tudo desaba, ele fica com a filha e por um momento conseguimos ver um sorriso quando o pai olha para a bebé (a única coisa que ele realmente tem, uma razão para continuar a viver e a lutar).

Também o Amor da juventude é um tema deste filme. O amor ingénuo de dois adolescentes (Harry com 19 anos que ainda não amadureceu e Monika de 17 anos) que sonham com um futuro perfeito sem dificuldades, não se apercebendo de que o futuro real não será tão cor-de-rosa, principalmente com a gravidez prematura de Monika.

Talvez o tema que acho mais interessante e aquele que é mais trabalhado no filme é o tema das Relações Familiares. As famílias de Harry e Monika levam-nos a sentir a falta de algo e mais tarde a família que constroem é talvez também vítima dessas falhas. A mãe de Harry morreu quando ele era pequeno e a sua educação ficou a cargo de um pai doente e deprimido com a morte da mulher fazendo com que mal fala-se com o filho e deixando Harry com um vazio. Por outro lado, Monika vive numa família grande, com três irmãos, a mãe e um pai alcoólico que tanto é uma pessoa divertida e bem-disposta como um homem amargo que quando bebe de mais se torna violento para com a mulher e os filhos, deixando Monika com um grande desejo de abandonar tudo aquilo. Já no fim do filme, Harry e Monika vêm-se dentro da sua própria família quando June nasce. E mais uma vez, é-nos contada mais uma história familiar. Desta vez, Monika (mãe de June) negligência a filha por completo e depois da separação abandona-a ao cargo de Harry.

[Decomposição da Cena Principal]

Na minha perspectiva, a cena principal do filme é a representada abaixo através dos 10 fotogramas.


Esta é a cena mais importante do filme porque é aqui que Monika cai na realidade e nos tenta passar tudo aquilo em que está a pensar. Monika está prestes a cometer adultério quando olha o espectador.

A protagonista sonhou com uma vida de luxo, no entanto, a realidade é que vive como uma “porca” (sem dinheiro, sem condições de vida), tem uma filha que não suporta e um marido que não cumpriu a promessa de lhe dar uma boa vida. Tudo aquilo com que sonhou não se realizou. A menina rebelde, divertida e feliz tornou-se numa mulher amargurada e infeliz.

Através da sua expressão facial apercebo-mos de que não está feliz com as acções que está a tomar, possivelmente sente nojo de si própria, mas aquela é a única saída que vê.

É este o momento em que Monika decide desistir de Harry e da sua vida, dos seus sonhos. Se havia alguma possibilidade do filme ter um final feliz, esta cena e a expressão de Monika dão-nos a certeza de que já não há volta a dar. Toda a alegria sentida durante o Verão transformou-se em decepção e tristeza. O olhar dela chega mesmo a ser interrogatório… O que faria o espectador no lugar dela? Pretende que o espectador reflicta e responda (o tempo desta cena é longo), que reveja tudo aquilo pelo que ela passou, que sinta pena dela e ao mesmo tempo que a critique. Ela não quer saber, desistiu. Quase que a história poderia acabar aqui.

[Conclusões]

Agora que finalizei a minha análise do filme, irei referir algumas conclusões a que cheguei. A primeira de todas é a justificação do título escolhido para o filme. Infelizmente a tradução para o português não foi a melhor (como acontece com a maioria dos filmes estrangeiros ao virem para Portugal) e, por isso, também o significado deste foi perdido. Sommaren Med Monika significa Verão com Monika e não Mónica e o Desejo. Esta tradução será errada principalmente por uma razão simples, não é Monika em si que é importante mas sim o Verão passado com ela. O título resume a história. A história de um rapaz que se apaixonou por uma rapariga e a única coisa que sobrou no fim foi uma filha e as memórias de um Verão com Monika, que parece mais um sonho do que um Passado Real.

Outra conclusão a que cheguei foi que as paisagens de Cidade/Campo foram também usadas como alegorias à Prisão/Liberdade. Enquanto o Campo é um lugar de liberdade onde as pessoas podem ser livres e passear por todo o lado sem ter problemas atrás delas, a cidade é um lugar que nos impressiona, segundo a história, pois é nela que estão os problemas, as obrigações e todo aquele mundo que não nos deixa ser felizes e livres.

Tal como acontece em filmes como The Wrong Man de Alfred Hitchcock, temos algo no início do filme que nos leva para o seu desfecho. Alguns minutos após o início de Sommaren Med Monika vemos um homem a transportar num carro de mão algumas peças de mobília. Depois de vermos o filme apercebo-nos que aquele plano poderia servir como alegoria ao final, quando Harry vende a sua própria mobília (incluindo peluches da pequena June) cuja é levada pelo mesmo homem no mesmo carro de mão.

Uma outra solução interessante que encontrei por duas vezes no filme, foi a forma como Bergman simulou a “saída” da realidade e a entrada no mundo dos pensamentos através do escurecimento do fundo e do destaque que isso dá à personagem. Isto é visível quando Monika está prestes a trair Harry com outro homem e no final do filme, quando Harry se recorda do seu Verão com Monika. Através do escurecimento do fundo, sinto que saímos da realidade, tal como acontece quando nós próprios começamos a pensar em algo profundamente (sentimos que não estamos mais na realidade, tudo à nossa volta desaparece, torna-se num fundo preto).
    

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