Tokyo Story (Yasujiro Ozu)

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Sendo uma proposta de trabalho para a cadeira de Estudos Fílmicos (Mestrado em Cinema) esta pequena análise recairá sobre Tokyo Story (1953), um dos filmes mais populares do realizador japonês Yasujiro Ozu (1903 – 1963), que embora tenha começado a sua carreira inspirado no Cinema Clássico Americano, procura a partir de meados da década de 1930, uma estética que quebra com as regras pré-definidas, criando outras novas e singulares.


Incluindo uma pequena sinopse e uma análise fílmica que englobará pontos como o Contexto Social, personagens, característica de Ozu e contraste entre Urbano e Citadino, este trabalho será ainda complementado por três artigos e uma Masterclass organizada pelo British Film Institute. O primeiro artigo encontra-se no livro Film Art: An Introduction de David Bordwell e Kristin Thompson lançado pela McGraw-Hill em 2008. O texto encontra-se na quinta parte, Critical Analysis of Films, no Capítulo 11, Film Criticism: Critical Analyses, no segundo sub-capítulo, Narrative Alternatives to Classical Filmmaking. O segundo artigo, Viagem a Tóquio: A transitividade entre o visível e o invisível, é da autoria da académica Patrícia Castello Branco, sendo parte de um volume da Cinema e Filosofia sobre o tema Imanência/Transcendência. O terceiro e último artigo, The Spaces In-Between: The Cinema of Yasujro Ozu, pertence a Adam Bingham, académico e aficionado por Cinema Japonês, e foi consultado no site Questia.com (artigo original lançado na revista CineAction (nº63) no Inverno de 2004). Quanto à Masterclass, intitulada Tokyo Story: Masterclass with Mamoun Hassan, esta foi dada no dia 16 de Janeiro de 2010 pelo produtor, argumentista e realizador Mamoun Hassan e pode ser encontrada para visualização no site da British Film Institude.


Sinopse:

O filme que tem inspirações visíveis tanto em Hitori Musuko (1936) de Ozu como em Make Way for Tomorrow (1937) de Leo McCarey, conta a história de Shukichi e Tomi Hirayama (Chishu Ryu e Chieko Higashiyama), um casal de idosos que decide viajar até Tokyo para visitar os seus filhos mais velhos: Koichi (o filho mais velho, um pediatra casado com Fumiko e pai de Minoru e Isamu) e Shige (a filha mais velha, dona de um cabeleireiro e casada com Kuzaro).

Vendo-se demasiado ocupados com o trabalho e sem espaço para ter ambos os pais numa só casa, os dois filhos decidem pedir a Noriko (viúva do segundo filho, Shogi, que morrera na Guerra) que deixe Tomi pernoitar em sua casa, enquanto Shukichi ficaria em casa de Shige. Entendendo o quão a sua presença é indesejada pelos filhos, agora mudados, o casal opta por regressar a casa.

Pouco tempo depois, Shige e Koichi recebem um telegrama a anunciar o adoecimento da mãe, cuja acaba por falecer horas depois.
           
Contexto Social:

Em 1953 encontramos um Japão acabado de sair da guerra. Um País outrora grandioso, reduzido a cinzas, destruído quer exterior como interiormente. Os valores começam a ser colocados em causa. Os mais velhos, antes respeitados e símbolo de sabedoria, são agora abandonados pela nova geração, acusados de possuir valores antigos e que de nada servem ao novo Mundo.

Estamos num país que ainda não sabe bem para onde vai e qual o futuro que o espera, fazendo de tudo para esquecer o que perdeu.

Personagens:

Shukichi vive com a mulher Tomi numa pequena e pacata vila. Após a morte da mulher, entrega a Noriko um relógio que pertencia a Tomi como lembrança e demonstração da gratidão que sente por ela, depois de ter sido a única a mostrar uma preocupação verdadeira com ele e a mulher durante a sua viagem a Tokyo, apesar da sua casa ser a mais pequena de todas e de estar tão ocupada como qualquer um dos outros filhos. Esta lembrança não é “material” como o Kimono que Shige leva mas é sim uma lembrança de verdadeira gratidão, não interessa o seu valor monetário mas aquilo que acarreta.

Tomi vive com o marido e a sua filha mais nova Kyoko (Kyoko Kagawa) numa pequena casa numa vila longe da confusão e transformação da cidade. É uma mulher sensível, incapaz de seguir em frente após a morte do filho, acontecimento que a marca profundamente. Podemos ainda entender que Tomi não chora apenas a morte de Shogi, mas a “morte” de um país e dos seus valores, após uma guerra que destrói não apenas Nagasaki e Hiroshima como todo o Japão.

Koichi (So Yamamura) é o irmão mais velho e um médico pediatra. Conservador, ele é casado com Fumiko (Kuniko Miyake), que tem de permanecer sempre em casa, cumprindo os seus deveres de esposa e mãe de forma impecável.
  
Shige (Haruko Sugimura) é a filha mais velha, dona de um cabeleireiro, casada com um homem (Nobuo Nakamura) que lhe é de certa forma submisso. Um casamento que não aparenta ter amor mas apenas um sentido de dever. À semelhança do irmão, tenta afastar os pais de sua casa desculpando-se com o facto de não ter espaço para eles. No final, após a morte de Tomi, esta pede à irmã mais nova algumas “lembranças” da mãe, nomeadamente uma faixa e um kimono, mostrando um lado menos sentimental e mais materialista. Ela é de certa forma, a personagem mais “Ocidentalizada”, a mais frontal e mais verdadeira, dizendo o que pensa sem temer o que os outros pensam dela. 

Keizo (Shiro Osaka) é um homem ocupado e que não vê os pais há muito tempo. Este afastamento é mais profundo quando a mãe adoece e ele consegue apenas chegar já depois de ela ter morrido.

Shogi é o filho do meio, morto durante os conflitos da Segunda Guerra Mundial. Representa a realidade de muitos Japoneses que perderam filhos, maridos, irmãos, pais, durante a II Grande Guerra. Durante a cena em que Shukichi vai beber com os amigos, este tema é retractado mais directamente, quando inclusivamente, um dos homens confessa ter perdido o único filho que tinha. Com estes jovens soldados, perderam-se ainda os valores e a honra que caracterizava o Japão desta época. O país que perdera a guerra e que ficara destruído não apenas exteriormente mas também interiormente.

Kyoko é a filha mais nova e a única que ainda mora com os pais. É também a única, para além de Noriko, que se preocupa com o bem-estar de Tomi e Shukichi, ficando ofendida quando após a morte da mãe, Shige lhe pede um kimono e respectiva faixa como “lembranças”.

Noriko inacreditavelmente a única pessoa que se preocupa genuinamente com o casal. Embora seja a viúva do filho, continua a ser tratada como um membro da família pelo casal idoso, transformando-se apenas numa saída viável para Shige e Koichi. O facto de nunca referir os seus próprios pais pode aparecer aqui como um chamado de atenção e reforço de que o realmente importante é o facto de ela fazer parte dos filhos de Tomi e Shukichi. Toda a sua vida para além disso não interessa para a Narrativa de Tokyo Story. Talvez até apareça aqui como uma réstia de esperança de que ainda haverá jovens sábios, que salvarão o país. Por outro lado, no final, ela acaba por dizer a Kyoko que a distância entre pais e filhos vai crescendo com o tempo, não podendo fazer nada para o evitar. Estará ela a confessar “desprezar” os próprios pais?


Características de Ozu em Tokyo Story:

De uma forma geral, podemos verificar que a Filmografia de Ozu possui, na grande maioria das vezes, todos os elementos que o caracterizam como um realizador singular e único. Alguns desses aspectos, são igualmente visíveis em Tokyo Story.

Durante esta obra podemos viajar numa Narrativa Livre, descentralizada, onde entre outros aspectos descobrimos acontecimentos importantes apenas após terem acontecido, como a morte de Tomi. Esta característica permite-nos passar de personagem em personagem, de local em local, de uma forma um pouco “desorganizada” através da utilização de Elipses.

Outro aspecto nos filmes de Ozu é o facto de não serem os personagens a olhar o Mundo, mas sim o Mundo (neste caso Tokyo) a observar os personagens. Isto explica as míticas cenas das fábricas que antecedem a verdadeira acção, embora esta nunca aconteça na zona industrial da cidade.

Em termos de planos, estes são longos, filmados ao nível do chão, mais próximo da terra do que do céu, mais perto da materialidade do que da espiritualidade, usando um ponto fixo, frontal e sem movimento, respeitando os diálogos dos personagens (o plano corta antes do personagem começar a falar e apenas o abandona quando não tiver mais nada a proferir).

Embora isto possa levar a uma limitação do campo de visão, Ozu faz questão de trabalhar o fora-de-campo, quebrando a regra dos 90º e criando planos que vão rodando, como se se tratasse de um personagem imaginário que passeia pela sala, dando-nos a conhecer o espaço total e não apenas o espaço “à frente da câmara”.

Sonoridade:

Apenas como um pequeno à parte, é importante notar que alguns sons tendem a continuar mesmo após o desaparecido da sua fonte, por exemplo, o som do motor do barco que continua mesmo após este sair de campo.

Rural e Urbano:

Tokyo Story é ainda um filme que viaja constantemente num Presente que contém tanto o Passado como o Futuro, incerto. Na pequena cidade de Onomichi em Hiroshima podemos encontrar estátuas Budistas, que remetem para o Arcaico, o Antigo, os Valores de outrora. Em contrapartida, Tokyo é apresentado através das chaminés das fábricas, do fumo, dos prédios, berço do Moderno e dos Novos Valores.

Uma das alturas do filme em que subtilmente se comprova esta ideia é durante a sequência inicial na qual começamos por ver um pequeno barco a motor, seguido de um plano com crianças a caminhar, que nos levam à passagem de um comboio. Aqui podemos ver como Ozu reflecte sobre o caminho que o Japão está a seguir, onde a juventude parte de um “Primeiro Mundo” caracterizado pela Serenidade (segundo Mamoun Hassan, o som do barco a motor pode remeter para o bater do coração, algo pacifico), em direcção a um “Segundo Mundo” (um ambiente rude, barulho e violento, como o som do apito do comboio) com o qual terá de se confrontar.

Curiosamente, o Plano Final é o de um barco moderno, que substitui o som que anteriormente ouvíramos com um semelhante ao apito de um comboio. Terá o Japão abandonado a Tradicionalidade por completo? Terá Ozu compreendido que não há forma de voltar atrás?

Conclusão:

O filme considerado pelos críticos não só japoneses como internacionais como uma obra confusa é visto hoje em dia como algo complexo e de grande valor artístico. Um trabalho que funde espaço e tempo, misturando gestos do quotidiano (como a contemplação do mar ou a avó que brinca com o neto) e trabalhando o visível e o invisível (“o que se diz o que se cala”). Tudo isto para nos falar de temas como a Morte e o Envelhecimento, temas que parecem simples mas preocupam milhares de pessoas ainda nos dias de hoje. Em pleno Século XXI, os velhos ainda sofrem com uma geração que cada vez mais pensa de forma utilitária, sem paciência para os seus anciãos.

Por outro lado, a construção é tão subtil que no final, cada um pode interpretar a mensagem transmitida por Ozu como quiser, podendo mesmo em última análise ver aqui uma demonstração de como os velhos (Tomi e Shukichi) são de facto um peso para os filhos.

Polémicas à parte, termino com uma frase de Mamoun Hassan, proferida durante a sua Masterclass sobre Ozu para o BFI: “Se o Mundo do Cinema consiste em nos transportar para fora de nós mesmos, Ozu deseja transportarmo-nos para dentro de nós próprios.”
   

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