Children (Takuya Okada)

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Depois de Melan & Chory (que podem ver aqui) trago-vos uma pequena review de Children de Takuya Okada, publicado na sua página do Youtube em Junho de 2011 (aqui). À semelhança da primeira curta, Children traz-nos o lado mais sombrio do homem, desta vez através da instituição da escola e, de uma forma geral, através da visão que os adultos têm das crianças hoje em dia, não apenas no Japão (sendo que este trabalho poderá também ser visto como uma crítica social) mas em todo o Mundo.


O primeiro plano mostra-nos um personagem que olha o vazio. A sua caracterização começa logo por ser peculiar, particularmente devido ao fecho que tem no lugar de boca.

O plano passa rapidamente para um cão preto que corre na sua direcção mas que acaba por ser atropelado por um comboio.

O rapaz fica parado a olhar o cão mas acaba por se virar e prosseguir o seu caminho sem mostrar qualquer tipo de emoção relativamente ao que assistira. Vemos que o personagem é um aluno, devido à mochila que traz às costas e que agora conseguimos ver.


A câmara sobe e temos um Plano Geral da cidade, preenchida com fábricas e um céu cinzento. Tudo é igual. Mais do que isso, o único som que ouvimos até agora é o do vento, do comboio e do cão, novamente o vento, frio e assombroso. 

Conforme o título da curta aparece, aparece com ela uma música que intensifica este ambiente, a Marcha Fúnebre de Chopin.

Na escola, o professor escreve no quadro, sem olhar os alunos, e estes copiam a lição rapidamente. Podemos ver que as crianças são todas iguais, todas com um fecho no lugar da boca e o único elemento que os distingue é o número por cima das suas cabeças.

Na aula de educação física, o professor (que usa uma máscara) marca os golos num jogo de futebol. As crianças, mais uma vez, não mostram qualquer entusiasmo e limitam-se a correr de um lado para o outro de forma uniforme e coreografada. O resultado mantém-se igual durante todo o jogo e quando uma das equipas parece estar a ganhar, um dos alunos vai sozinho marcar um golo enquanto os restantes colegas ficam parados a ver (até o guarda-redes se mantém imóvel), tudo para que o resultado fique novamente igual.

A máscara do professor pode ter alguns significados. Um deles, o facto dele se fingir contente com a sua profissão e o seu Mundo, embora despreze ambos. Por exemplo, quando os alunos se rebeliam, a sua expressão corporal mostra medo e preocupação enquanto a sua máscara permanece a sorrir. Ele é um ideal.

Dentro da sala o professor devolve agora os testes dos alunos. As notas são as mesmas, as melhores que podem haver. Uma alegoria perfeita do desejo da educação no Japão de criar alunos brilhantes.

No fim do dia, os alunos marcham de volta a casa. 4483, o protagonista se assim se pode chamar, volta a assistir à morte do cão, sem nada fazer, sem mostrar emoção.

No dia seguinte, vemos os alunos fazerem um desenho. Mais uma vez são todos iguais. Mais uma vez temos a crua realidade de que as suas aspirações e desejos são iguais, uma cidade repleta de chaminés, cinzenta, sem vida.


É apenas a meio do filme que começamos a ter esperança nas crianças deste universo. Enquanto recebem os testes, 4483 parece demonstrar algum tipo de sentimento. Parado a olhar o seu teste, pensa nos desenhos iguais dos seus colegas, no professor sempre feliz, a música pára momentaneamente e dá lugar a um som confuso. Mas será que como acontece há música, isto é apenas uma paragem momentânea? Será que no fim tudo será reposto e continuará no mesmo?

Quando o professor se apercebe de que algo está errado, continua com o seu sorriso e verifica nas fichas quem o aluno é. Ele não os consegue distinguir. Não sabe os seus nomes ou de onde são. Apenas verifica nas folhas. É uma relação impessoal e mecânica.

Repentinamente o fecho de 4483 parte, fazendo-o soltar um grito mudo. Por muito que seja de rebeldia, eles não saberão gritar talvez, não saberão exactamente como se exprimir. Por outro lado, conseguem finalmente respirar liberdade.

O gesto é repetido pelos restantes colegas e por toda a escola. Mas será que se libertaram realmente? Na rua, podemos ver que todos correm para o mesmo lado e mais ou menos na formação com que marchavam algumas cenas atrás. De certo modo, eles continuam a espelhar-se e a copiar alguém. Continuam sem qualquer tipo de personalidade.

O cão regressa. E desta vez, 4483 não ficará indiferente. Corre para ele e os dois acabam por ser atropelados. No chão o rapaz parece estar morto e o cão foge. Por muito que ele mude, o Mundo continuará a ignorá-lo e a repetir-se (algo representado pelo cão, indiferente ao seu sofrimento).

A música pára. A sua marcha termina.


Surpreendentemente, 4483 ainda está vivo. Ouvimos o primeiro som Humano (até aí apenas temos o giz, as folhas, o comboio, entre outros). Um riso. Embora possivelmente apenas a morte o espere, 4483 está feliz. Finalmente seguiu os seus instintos, finalmente sente alguma coisa. Está livre. Está vivo.

A câmara sobe e vemos uma nuvem de fumo preta no meio da cidade. Restará alguma esperança para as crianças? Ou continuarão elas a seguir-se, destruindo cada vez mais a sua cidade. Afinal, nenhuma delas tentara salvar o cão. Nenhuma delas tentara ser realmente diferente.


Estamos essencialmente perante uma Sociedade que defende a igualdade aos extremos. Somos todos iguais, não temos que pensar, não temos que falar, apenas temos de obedecer. Ninguém deve ser melhor que os outros (daí o jogo de futebol manter-se empatado). Esta ideia pode ser suportada também pela própria música: as crianças caminham para a sua própria morte, para um mundo de cópias, sem emoções, sem pensamento.

Gosto bastante mais deste filme, em comparação a Melan & Chory. Conseguimos ver uma evolução estrondosa em termos de animação, banda sonora (música e efeitos sonoros) e também em termos de narrativa, provocando uma reacção mais forte por parte do espectador e indo mais a fundo em problemas que nos parecem irrelevantes mas que são bastante importantes numa Sociedade actual onde se promove cada vez mais a igualdade e a perca de criatividade.
      

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